Por que ler “A Utopia”?

Era maio do ano de 1515 quando Henrique VIII enviou seu então chanceler Thomas More para uma missão oficial para negociações em nome do rei inglês, como o próprio More narrou:

O invencível e triunfante rei da Inglaterra, Henrique VIII de seu nome, príncipe de virtudes incomparáveis, teve, não há muito tempo uma disputa com o príncipe Carlos, poderoso rei de Castela, sobre assunto de peso e importância. Sua majestade então enviou me à Flandres, com a missão de, como embaixador, tratar e resolver essa disputa

O assunto de “peso e importância” era a proibição de exportar lã inglesa, proibição feita pelos países baixos.

Durante a viagem, More visita então seu amigo Pierre Gillies – Um dos locutores d’ Utopia – em sua casa imagina o diálogo entre ele (More), seu amigo (Gillies) e Pico Della Mirandola, personificado no livro na voz de Raphael Hitlodeu, discutindo as melhores formas de se governar e qual seria o melhor modelo de sociedade. A Idea parecia boa a More que ansiava escrever uma obra como o Elogio da Locura de Erasmo de Rotterdam ( por sinal seu grande amigo).

More via na Inglaterra problemas graves que precisavam de soluções e buscou coloca las em seu livro, o enriquecimento rápido da aristocracia, a criação de ovelhas em larga escala devido a indústria dos lanicídios, a má conduta de clérigos, entre outros.

Os inumeráveis rebanhos de carneiros, outrora tão meigos, domésticos e sóbrios, e que agora se tornaram tão vorazes e ferozes que chegam mesmo a devorar os próprios homens. São eles a causa da destruição e despovoamento dos campos, casas e povoações [ …] É assim que um avaro impaciente e insaciável pode tornar se uma praga para seu próprio país.

Hitodleu – Locutor da segunda metade do livro – é um grande explorador que diz ter vivido cinco anos entre uma ilha chamada Utopia – Em grego: Em lugar algum – especialmente sua capital Amarota.

Os três discutem os problemas supracitados até que Hitlodeu inicia sua narrativa acerca desta ilha em que os habitantes não se importam com o ouro, as mulheres estudam assim como os homens -More defendia o direito de educação das mulheres, algo incomum para sua época, suas filhas eram instruídas em latim e grego – a ciência e a arte progridem, os magistrados são eficazes, os clérigos são honestos e o rei não é um despota.

Se, porém,tivesses estado comigo na Utopia, se tivésseis observado as suas instituições e leis, como eu que, ali passei cinco anos, e nunca teria voltado se aqui não fora o desejo de aqui revelar esse novo mundo, então confessaríeis, sem dúvida, que nunca encontrareis, como ali, povo tão bem organizado.

A sociedade que poderia existir em algum lugar, mas que ainda não era a sociedade inglesa de Thomas More.

A ideia de escrever a Utopia atraia não só More como seu amigo Erasmo de Rotterdam, que nos anos seguintes chegou inclusive a ser corretor e editor do livro. Contudo, eram tempos difíceis para More e até mesmo tempo para escrever seu livro como queria não era tarefa fácil para o então conselheiro do rei.

Thomas More (1478 – 1535 ) by: Hans Holbein the Young

Thomas More era seu conselheiro pessoal e ainda o encarregado do rei para responder as críticas teológicas de Martinho Lutero que havia iniciado sua campanha de reforma da igreja e Henrique VIII junto a seus intelectuais humanistas buscava responder teologicamente as teses de Lutero, o esforço do rei lhe rendeu o título de “defensor da fé”, mas as relações de Henrique VIII com a Igreja Católica mudaram drasticamente nos anos seguintes.

Henrique VIII em 1525 já manifestava suas intenções de divórcio com Catarina de Aragão, o Papa via se entre a cruz e a espada, uma vez que teologicamente o casamento era indissolúvel e Catarina de Aragao era tia de Calos V da Espanha e exercia grande influência sobre a Itália.

More desde o início havia se mostrado contra as intenções de Henrique VIII, contudo o rei pressionou seu chanceler para que agilizasse o processo em Roma, lhe desse argumentação convincente e urgente.

Henrique VIII (1491 – 1547 ) by: Hans Holbein the Young

Henrique VIII buscou inclusive teólogos das universidades de Cambridge e Oxford para que alegassem que o casamento havia sido ilegítimo, contudo, por razões não só teológicas mas políticas o papa estava impossibilitado de tal ato, Henrique VIII decidiu então negar a autoridade papal.

Thomas More acompanhava o processo descontente, não via os atos do rei como legítimos e buscava distanciamento da corte, a votação do Ato de Supremacia que colocava Henrique VIII como chefe da Igreja da Inglaterra foi a gota para More.

A excomunhão do rei, o Ato de Supremacia, o casamento com Ana Bolena eram para More a frustração de seus trabalhos contínuos a serviço do rei, More não se via mais representado pelo mesmo.

Thomas More negou assistir a coroação de Ana como Rainha da Inglaterra, esse entre outros atos de não obediência ao rei começaram a levantar suspeitas de sua traição, até sua decapitação em 6 de Julho de 1535.

A cabeça de More rolou após sua decapitação, mas suas ideias pegaram.

Pensar sociedades perfeitas e como poderiam ser instauradas tornou se pauta na agenda dos Humanistas.

De Francis Bacon com sua Nova Atlântida no século XVII às Viagens de Gulliver de Swift no século XVIII diversos buscaram construir suas Utopias.

Entre católicos, More se tornou mártir da fé em 1886 e declarado patrono dos políticos e dos governantes pelo Papa João Paulo II em 1998. Sua história conflituosa com Henrique VIII ficou famosa e lhe rendeu até filme Um Homem Para a Eternidade de 1966 premiado como Melhor Filme do Ano, Melhor Ator e Melhor Diretor

Ainda hoje More é discutido, seja pelo conceito de utopia, por seu papel em seu tempo, ou seu legado. Há inclusive quem crie relações entre a Utopia de Thomas More e o início do Socialismo Utópico.

A Utopia de More não é uma obra ideologicamente perfeita, basta ler para ver que os habitantes de Amarota são supervisionados o tempo inteiro. Esse conceito de vigilância constante talha toda possibilidade de privacidade e as distopias – 1984 de Orwell – nos mostram as graves consequências disso. Todavia, deveríamos ler a Utopia de Thomas More não para imitar o modelo de Amarota, suas leis e hábitos.

Devemos ler a Utopia de Thomas More por que ela é antes de tudo um espelho da Inglaterra do Século XVI, e um incentivo a reflexão do que não somos mas gostaríamos de ser, da sociedade que não temos e gostaríamos de ter. Até mesmo a refletir se é benéfico ou não criarmos utopias.

Como todo clássico, as interpretações são inúmeras, o que nos dá sempre o prazer de uma nova descoberta e uma nova reflexão.

Boa leitura 📖

Texto de Lucas Anselmo, formado em História pela FMU, é editor-chefe do do site Estante de Clássicos, onde une a história com a literatura

2 comentários em “Por que ler “A Utopia”?

  1. Muito interessante, More tinha tb suas contradições. Grande humanista e um fanático caçador e queimador de luteranos, quando chanceler. Utopia é citada em meu mais recente romance, O Fazedor da Utopia, que fala do Brasil atual.

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