Por que ler “O Príncipe”?

Presente na nossa linguagem o termo Maquiavélico para designar algo ou alguém que não mede meios para chegar aos seus fins ou alguém de conduta fria e imoral, a história dessa figura é interessante para todo aquele que busca entender melhor a política e o pensamento do mundo Renascentista.

Hoje conhecido como pai da ciência política, Nicolau Maquiavel ou Niccolò Machiavelli, nasceu em Florença no dia 3 de maio de 1469, filho de advogado com limitados recursos, Maquiavel iniciou sua carreira pública em 1494, época em que os grandes Médici haviam sido expulsos de Florença e a cidade havia se tornado uma república. Os Médici só foram retornar a cidade em 1512, durante os 18 anos, Maquiavel exerceu cargos diplomáticos que lhe proporcionaram grande experiência acerca da política e da natureza do poder, todavia, sua maior experiência deve ter sido em 1502 numa missão em Senigallia junto a César Borgia, filho do Papa Alexandre VI e que ao olhar de Maquiavel, possuía as qualidades essências de todo grande líder e governante.

O historiador Will Durant em Heróis da História relata o evento como excepcionalmente marcante na vida de Maquiavel:

Ali estava um homem seis anos mais novo do que ele, que em dois anos derrubara muitos tiranos, pusera ordem em muitas cidades e se tornara o próprio meteóro de seu tempo […] Daquele momento em diante, César Borgia virou o herói do pensamento de Maquiavel, assim como Bismarck seria o de Nietzsche; naquela corporificação da “vontade de poder” havia uma moralidade além do bem e do mal, um modelo para super-homens.

Heróis da história, Will Durant

César Borgia possuía incríveis habilidades de planejamento e não média esforços para consolidar seu poder autocrático, chegou inclusive a eliminar o irmão para alcançar seus fins e planejou a sucessão do pontífice no aguardo da morte do pai. Ainda que os planos de César Borgia não tenham seguido os conformes, Maquiavel admirava os feitos de César Borgia, sua coragem e sua flexibilidade moral de fazer o que fosse necessário para atingir seus fins.

César Borgia (1475 – 1507)

Com o retorno dos Médici em 1512, Maquiavel se viu em maus lençóis, já que durante os anos de exilio dos Médici, Niccolo Maquiavel sempre se mostrou avesso as políticas Médici. Foi acusado de conspirar para volta da república, torturado e exiliado.

O retorno dos Médici a Florença veio junto a ascensão de Leão X ( Giovanni de Médici), um ano depois de sua volta a cidade a poderosa família conseguira colocar um membro da família no pontífice. E o fato não passaria despercebido por Maquiavel, que então escreve um pequeno livro direcionado a Lourenço II de Médici.

Durante o período medieval foi comum obras conhecidas como “Espelho de Principe”, esses livros tinham a finalidade de dar conselhos a governantes no intuito de que este ao seguir a obra se tornasse melhor cristão e melhor defensor de seu povo, assim o governante que se visse na obra, estaria no caminho correto.

Maquiavel buscou então um meio de conseguir cair nas graças dos Médici através da escrita de seu próprio espelho de Principe

Desejando eu, portanto, oferecer algum testemunho de minha servidão a Vossa Majestade, mas não encontrei, entre meus bens, nada que me seja tão caro e estimado quanto o conhecimento das ações dos grandes homens, apreendido por mim com uma longa experiência das coisas modernas e a constante lição das antigas

Carte de Maquiavel a Lourenço II de Médici

O príncipe de Maquiavel criou certa ruptura com a tradição dos espelhos de príncipes, uma vez que Maquiavel não buscou de forma alguma aconselhar um governante a seguir as normas éticas do cristianismo. O governante que Maquiavel buscava construir com sua obra era um príncipe que não tivesse por outro objetivo a não ser conquista, auto suficiência e conhecimento de seu principado, para isso o único hobby a qual esse deveria se ocupar seria a arte da guerra. Para Maquiavel a segurança do estado era a lei suprema e não se deveria medir meios para conquistar tal fim, mesmo que para isso tivesse que sacrificar o amor dos súditos a troco de ser temido:

Se é melhor ser amado que temido ou o contrário. Responde se que de desejaria ser um e outro, mas porque é difícil sê lo, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se deve abrir mão de uma das duas qualidades […] O temor é mantido pelo medo da punição que não te abandona.

O Príncipe, Maquiavel

Na obra Maquiavel buscou na imitação de exemplos da antiguidade os grandes exemplos do que seria um bom governante. Para Maquiavel, mais do que as grandes ideias e palavras, os grandes feitos eram o que realmente importava, assim, para Maquiavel a disciplina crucial para o grande líder era a História e não a Filosofia.

Mas não era o simples conhecimento histórico, era Historia Magista Vitae, a História professora da vida, aquela capaz de ensinar os homens do presente sobre os erros e acertos do passado, para que estes se tornem mais sábios e capazes de ir além dos limites impostos pelo passado. Além dos exemplos da antiguidade e do passado Florentino, recorrentemente vemos na obra a figura de César Bórgia, que dada a sua colocação acima, não é de estranhar ser este o exemplo do que é ser Maquiavélico.

Ao instruir com seus exemplos históricos, Maquiavel inevitalmente apresenta um quadro dos tipos de principados existentes em seu tempo

Todos os estados, todos os governos que houve e que importaram sobre os homens, foram ou são repúblicas ou principados. Os principados ou são hereditários, nos quais o sangue de seu senhor tenha sido príncipe por muito tempo, ou são novos […] São adquiridos ou pelas armas ou por virtude

O Príncipe, Nicolau Maquiavel

Seja qual for a forma de principado na qual um governante se veja em posse, ao longo de toda a obra Maquiavel afirmou a necessidade de independência deste em relação a qualquer necessidade, seja nas suas críticas as forças armadas onerosas, ou até mesmo a dependência deste a de conselheiros.

Bertrand Russel em sua História do Pensamento Ocidental diz que

O Príncipe nada mais é que um sumário das práticas comuns na Itália renascentista

História do Pensamento Ocidental, Bertrand Russell

Em 1515 Francesco Vettori amigo de Maquiavel entregou o opúsculo a Lourenço II de Médici, a reação do monarca de acordo com Vettori, foi de que Lourenço mal folheara o livro e o largou, ficara mais interessado com um dos cães que haviam lhe haviam sido presenteados.

Lourenço II de Médici (1592 – 1519)

Não demorou muito para que a obra fosse interpretada como aversa aos interesses florentinos e contra os Médici, ainda que a criação da imagem de Maquiavel como perverso tenha sido corroborada pela Igreja Católica, que não levou muito para colocar O Príncipe entre as obras proibidas de seu Codex.

Recusada por Lourenço de Médici, abominada pela Igreja Católica, o pensamento de Maquiavel exerceu incrível poder nas gerações seguintes. Seu “espelho de Príncipe” chegou inclusive a ser publicado em edições fraudulentas no século XIX onde eram supostamente “anotadas por Napoleão” traduzidas e publicadas pelo abade Aimé Guillion, que dizia ter encontrado o alfarrábio numa carroça comentado através de notas de rodapé pelo próprio Bonaparte. Se non è vero, è ben trovato, a narrativa revela a importância e relevância que o pensamento de Maquiavel exerceu nas gerações posteriores.

Ainda hoje, seja pelo termo Maquiavélico, seja pelas constantes referências na cultura popular como séries e citações de Maquiavel, O Príncipe ainda exerce sua relevância, seja na busca pelo entendimento do pensamento da política na renascença ou na busca por conselhos de liderança. O príncipe de Maquiavel ainda está na estante dos clássicos.

Boa Leitura 📖

Fontes:

Heróis da história, Durant. Editora L& PM, São Paulo: 2012.
História do Pensamento Ocidental, Russell. Editora Nova Fronteira, Rio de janeiro: 2016.
O Príncipe, Maquiavel. Editora Martin Claret, São Paulo: 2012.

TEXTO DE LUCAS ANSELMO, FORMADO EM HISTÓRIA PELA FMU, É EDITOR-CHEFE DO DO SITE ESTANTE DE CLÁSSICOS, ONDE UNE A HISTÓRIA COM A LITERATURA

3 comentários em “Por que ler “O Príncipe”?

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