200 anos de Frankenstein

Uma reabordagem do mito de Prometeu que se tornou ícone da cultura ocidental

Era uma noite de 1816 quando quatro literatos amigos que passavam por Genebra (Suíça), se viram num quarto escuro, junto a velas, conversando sobre as modernidades e os terrores do século XIX ainda em início. Ao fim da conversa noturna os quatro decidiram criar contos de terror, cada um era responsável por criar um conto e apresentar para o grupo. Esses quatro amigos eram ninguém menos que Lord ByronPolidoriPercy Shelly e sua esposa Mary Shelley.

Os resultados dessa singela reunião podem ser encontrados no mundo da literatura ainda hoje. Se pelo tema ou pela escrita, o tempo e os leitores deram destaque a Frankenstein dentre as narrativas de terror criadas aquela noite. Desde filmes renomados a fantasias de halloween, Frankenstein se tornou uma entidade, uma espécie de mito.

Publicado em 1818, por uma jovem de apenas 19 anos, Frankenstein ou o mito do Prometeu moderno documentava em sua ficção diversos conflitos filosóficos e sociais do início do século XIX. A genialidade de Mary Wollencraft ( Mais conhecida como Mary Shelley) não ficou registrada apenas pela idade precoce a escrita, mas na orquestração de uma narrativa única, embebida de discussões filosóficas afiadas. A primeira edição que foi publicada anonimamente ( muitos dos leitores acreditavam que Percy Shelley teria escrito e não Mary) foi sucesso, rapidamente republicada quatro anos depois.

Mary Wollstonecraft Shelley (1797 – 1851)

Seguindo estilo literário corrente na época, Shelley inicia sua narrativa através de personagens narrando suas experiências através de cartas ou diarios. A técnica era usada para dar um ar de realidade maior a obra, assim o leitor tinha a impressão de estar lendo um achado, um relato. No século XVII Defoe já utilizará a técnica em Robson Crosue, no século XVIII Goethe a usou em Sofrimentos do Jovem Werther, Bram Stocker em Drácula no XIX.

A narrativa tecida por Shelley é brilhante pois como Jacques Lecercle ressalta em ‘Frankenstein Mito e Filosofia‘ ela constrói uma espécie de sanduíche narrativo, ou seja, uma história dentro da outra. após o breve relato de apresentação de um viajante conversando com a irmã por cartas, relata a mesma que encontrou um desconhecido, esse desconhecido (Victor Frankenstein), Victor então toma voz e traça sua história da infância na qual toma contato com as teorias alquímicas até sua desilusão acadêmica e construção da criatura.

O entusiasmo por essa espécie de “ciência” o acompanha por toda adolescência até sua decisão de estudar numa universidade, todavia, a experiência académica foi frustrante para Victor que vê os teóricos alquimistas de sua infância tratados como mera ilusão por seus professores.

Me foi pedido trocar quimeras de grandeza ilimitada por realidades de pouco valor

Frankenstein. Shelley

Mary Shelley utiliza da voz de Victor para apresentar as mudanças no panorama científica do século XIX, seus anseios e avanços.

Após sua frustração acadêmica, Victor busca provar ao mundo universitário sua capacidade e o potencial de sua própria ciência. Isola se por dias dentro de casa e na caçada de corpos para seus estudos, tendo em mente dar vida para um corpo inanimado através de eletro choque. Shelley busca dar maior realidade para sua ficção através dos princípios do Galvanismo de Giovanni Aldino, que experimentava a animação de cadáveres humanos e animais.

Quando Victor finalmente conclui seu experimento surge a frustração da vida de Victor e o drama que fez da obra de Mary Shelley um livro que atravessa gerações:

Era uma tenebrosa noite de novembro quando contemplei as conquistas dos meus esforços. Com uma ansiedade que quase acrescentava agonia, eu recolhi meus instrumentos de vida em torno de mim, que eu poderia infundir uma fagulha de vida dentro daquela coisa sem vida que deitava aos meus pés. Já era uma da manhã; a chuva batia fracamente nas vidraças, e minha vela estava quase apagada, quando, pelo tremeluzir de uma quase extinta luz, eu vi os olhos amarelos abertos da criatura; respirou fundo, numa movimentação convulsiva. Frankenstein. Mary Shelley

Percebe-se que a construção da cena busca ressaltar o caráter solitário do gênio, a imagem de um cientista que longe de todos e excluído trabalha dia e noite para levar a sociedade suas grandes descobertas. Mas seria depreciar a capacidade artística de Mary Shelley ressaltar uma leitura que busca apenas abordagens políticas. A cena de criação da criatura foi uma das primeiras concebidas pela autora para sua obra como ela mesma relata em prefácio para obra em 1820.

A escuridão do ambiente, a chuva na janela, a madrugada em seu início, tudo isso corrobora artisticamente para o clímax : a abertura dos olhos amarelados da criatura e o medo de Victor ante sua criação.

Victor Frankenstein vê a criatura como uma aberração, e uma aberração criada por ele!

A culpa passa a perseguir Victor, sua motivação científica passa a ser vizinha da eterna precaução.

Frankenstein invoca questionamentos presentes em seu tempo, os limites de seus atos, suas responsabilidades para com suas criações, até mesmo se devemos satisfação de nossas criações a um possível deus existente.

Seria o homem bom e a sociedade o corrompe? Rosseau se perguntava, ou seria sempre o homem o lobo do homem? Hobbe afirmava. Shelley busca mostrar a construção da personalidade da criatura entre a premissa de um ser inocente como Rosseau imaginava, mas no contato com a sociedade a própria sociedade o torna lobo.

A identidade da criatura é tão vaga que nem nome possui, chamamos a criatura de Monstro Frankenstein e afins, mas Frankenstein é o criador, a criatura não possui nome a obra toda!

Para o crítico Jacques Lecercle, que analisa a obra como sendo um diálogo com diversas correntes do pensamento iluminista, a criatura não é tão tabula rasa assim, uma vez que ao observar os moradores da vila, a criatura aprende os cânones ocidentais:

Uma noite durante minha costumeira visita a vizinhança florestal onde eu coletava minha própria comida e trazia lenha para os meus protetores, eu encontrei no chão uma mala de couro contendo diversos artigos de vestimenta e alguns livros […] Eles consistiam em Paraíso Perdido, um volume das vidas de Plutarco, e os Sofrimentos do Jovem Werther

Frankenstein. Mary Shelley

A criatura incorpora a cultura religiosa para si através da obra de Milton, Paraíso Perdido, onde a batalha entre Deus e Lúcifer terminam com sua explicação dos céus e a criação do inferno; Plutarco e suas biografias dão a criatura os princípios de moralidade do ocidente, a bravura, a honestidade, a disciplina; Werther como a própria criatura diz, lhe ensina o que é amar e suas dores, o prazer da compania amorosa, e a solidão de não a ter. As citações de obras em Frankenstein não são ilustrativas, elas constroem a personalidade dos personagens.

A criatura assim como Prometeu na mitologia grega, que ao roubar o fogo e entregar aos homens se vira contra Zeus, a criatura se vira contra seu criador, o Lúcifer de Paraíso Perdido contra Deus. A criatura reivindica de Victor uma companheira, uma criatura que seja como ele.

Victor então vive um dilema: Viver culpado por criar outra aberração ou poupar a família ameaçada pela criatura?

Ainda que Victor abomine sua criação, muitos de nós ao ler Frankensteinsentimos certa empatia pela criatura, seja pelas cenas nas quais a criatura assiste a uma família camponesa por uma minúscula fenda na parede de sua cabana, seja por suas tentativas de ser apresentável a sociedade ou até mesmo por sua autoritária reinvidicação: uma companheira. A criatura se mostra humana em todos os aspectos, menos os estéticos.

Um século depois de sua publicação, Frankenstein veio ao mundo mais uma vez, mas não em livro, foi para o cinema sob a direção de James Whale e atuação de Boris Karloff Frankenstein – The Man Who made the monster (1931). O filme de 1931 foi responsável por criar a imagem de um Frankenstein com costura na testa e fenda no pescoço, o filme inclusive foi selecionado para o registro nacional de filmes da Biblioteca do Congresso norte americano em 1991 por sua relevância cultural e estética.

Pôster do filme dirigido por Whales em 1931

Dois séculos depois, adaptacoes de Frankenstein não faltam, fantasias de Halloween, séries nas quais a criatura é personagem coadjuvante como em Penny dreadful, quadrinhos da Mônica, e recentemente uma releitura do mito nos cinemas com James McCoy e Daniel Radcliffe (Victor Frankenstein – 2015).

As interpretações a cerca do propósito da obra são as mais diversas, houve quem tentasse enquadrar Frankenstein nas a análises Freudianas nas quais a criatura seria o Id de Mary tentando se revelar contra a gravidez, até analises nas quais a criatura seria uma alegoria do proletariado, sendo o conflito criatura e Victor Frankenstein um diálogo entre burguesia e sua criatura (proletariado).

Uma vez encontrados argumentos dentro dos texto, as análises de um clássico podem ser diversas, para um alguns, brilhantes, para outros, absurda. O fato é: clássicos dão voz ao mais íntimo e humano de nós, certas perguntas de Frankenstein talvez não tenham ainda sido superadas por nós…

Há limites para o poder científico? Temos o arbítrio de dar vida a algo? Ou de tirar do mesmo? Temos um criador? Ele nos deve felicidade, compania e realizações?

Boa leitura 📖

Fontes:

Frankenstein, Mary Shelley. Bantam Classic: 2005.
Frankenstein Mito e Filosofia, Jean Jacques Lecercle.

TEXTO DE LUCAS ANSELMO. FORMADO EM HISTÓRIA PELA FMU, É EDITOR-CHEFE DO SITE ESTANTE DE CLÁSSICOS, ONDE UNE A HISTÓRIA COM A LITERATURA
 Foto: Divulgação

4 comentários em “200 anos de Frankenstein

  1. Excelente texto, muito bem construído, as referências são ótimas e nos faz pensar sobre as diferentes interpretações da obra e sobre o homem “moderno” do séc. XIX
    A aquisição da cultura pelo monstro é muito bem lembrada.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s