Resenha: Memórias Póstumas de Brás Cuba, de Machado de Assis – por Genice Santos

Por Genice Santos

Sinopse:

Em meados da década de 1870, Machado de Assis já desfrutava do prestígio de ser um dos autores mais importantes do país, ao lado de nomes como José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Todavia, entre 1880 e 1881, a carreira de Machado tomou um rumo inesperado: com a publicação de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, aquele que seria nosso maior prosador elevou a literatura brasileira a um novo patamar, e seus ecos persistem até os dias de hoje. Na obra, o finado Brás Cubas decide contar sua história por uma ótica bastante inusitada: em vez de começar pelo seu nascimento, sua narrativa inicia-se pelo óbito. Enquanto rememora as experiências que vivera, entre uma digressão e outra, o defunto-autor tece uma série de reflexões sobre a vida e sobre a sociedade da época, com serenidade e bom-humor, e o leitor se surpreenderá ao constatar a atualidade de suas observações. “Memórias póstumas de Brás Cubas” pôs em xeque o conceito de Realismo literário, de romance e a própria forma de se fazer literatura. Divisor de águas na literatura brasileira, é uma obra à qual não se pode ficar indiferente.

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”

Com base nessa dedicatória e no próprio título do livro, posso começar concluindo, sem culpa de spoiler, que a história é contada por um defunto.

Isso mesmo, a célebre obra de Machado de Assis é contada em primeira pessoa por um defunto narrador, com isso, a narrativa inicia-se a partir do velório de Brás Cubas. Velório esse em que somente onze pessoas comparecem e que o autor justifica como sendo resultado da falta de divulgação, enquanto, ao mesmo tempo, deixa subentendido que um dos “amigos” que discursa na ocasião, herdará algo com sua morte, ou seja, uma amizade comprada.

Ao longo da história, tomamos consciência de como se deu a morte do personagem, vítima de uma pneumonia não tratada, isso porque, segundo Brás Cubas, ele estava tão focado em uma ideia revolucionária em que vinha trabalhando, que não teve tempo de cuidar da doença.

No decorrer da leitura, vamos ter acessos a algumas lembranças do defunto, onde conheceremos um pouco da sua infância (momento em que foi extremamente mimado e constantemente reforçado em suas maquinações e travessuras), passando por sua juventude (período em que viveu algumas desilusões amorosas) e por muitos outros acontecimentos que se sucederam sua vida adulta.

Porém, engana-se quem pensa que essa sequência de acontecimentos se dão de forma linear, ou seja, cronológica. Por se tratar de uma série de memórias, como o próprio título já diz, a narrativa não se preocupa em retratar as passagens da vida do personagem seguindo a ordem dos acontecimentos, muito pelo contrário, vamos observando muitos momentos em que Brás Cubas começa nos contando um memória e antes de conclui-la passa a relatar uma outra memória ou até mesmo algum delírio, e por aí vai. O que, se pararmos para pensar, é extremamente fiel a realidade, afinal de contas, quando nos recordamos de acontecimentos que se deram em nossas vidas, essas lembranças não se dão necessariamente de forma cronológica.

Vale ressaltar que essa obra de Machado de Assis inaugurou o Realismo no Brasil, ou seja, tem como objetivo denunciar as mazelas do psiquismo e da personalidade humana, com toda a sua podridão e hipocrisia, além de romper com as ideias ilusórias e distorcidas do Romantismo.

Sendo assim, durante toda leitura vamos nos deparar com as misérias de Brás Cubas, não me refiro aqui a falta de dinheiro, pois esse definitivamente não é um problema para o personagem, mas sim com sua personalidade pobre, mesquinha, fútil, prepotente e hipócrita. Afinal, como já está morto e livre de qualquer julgamento, o personagem não se preocupa em revelar tudo aquilo que o constitui, sendo ou não algo bom.

Então a gente pensa: “Como alguém pode ser tão ‘ruim’ assim?”

Pois bem caros leitores, Memórias Póstumas de Brás Cubas nada mais faz do que revelar todas as mazelas que nos constitui e que mantemos escondidos de todos, as vezes até de nós mesmos. Quantas vezes não fazemos uma “boa ação” com segundas intenções ou “ajudamos alguém” sem ter a menor pretensão, mas deixamos que os outros pensem em nós como os bons samaritanos que transparecemos ser? Ou seja, se pararmos para pensar e analisar bem quem e como somos, descobriremos que não somos tão diferentes assim de Brás Cubas.

É exatamente por essa sinceridade extrema e escancarada do personagem, que gosto tanto desse livro. São tantas reflexões e críticas feitas com sutileza e recheadas de ironia, que torna a escrita de Machado de Assis algo único. Especialmente quando lembramos que se trata de uma obra escrita na década de 1880, ou seja, palmas para a ousadia e coragem do meu autor nacional favorito, Machado de Assis.

fe8414ab-4985-41f8-b6c2-c21e9ecd1e2eMemórias Póstumas de Brás Cuba – Machado de Assis
Editora: Diversas
Lançamento: 1880
Páginas: 200 (Martin Claret)

Nota: 5/5
⭐⭐⭐⭐⭐

Preço mínimo: R$ 13,70 (Amazon)

 

Foto: Divulgação

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