Resenha: Caleidoscópio, de Débora Pfeilsticker – Por Fephs Lima

Por Fephs Lima

Sinopse: 

A poesia de Débora é tão sóbria quanto mais entrelaçada está com a pesada realidade. Algumas vezes mergulhar nos seus versos é estar, enquanto leitor, com uma faca encostada à garganta, o grito que sai da boca da poeta contém revolta e muito medo, porque o eu lírico está diante de uma realidade torpe, na qual, os gritos e as lágrimas dos que sofrem não mais comovem.

É rapidamente perceptível que entre os variados títulos de tais poemas, “Conto de Fadas”, “Puberdade”, escondem-se histórias e sentimentos que se secundarizam frente a crueza da realidade, que se destaca. Se a puberdade é o período no qual o jovem está radialmente se abrindo para as novas possibilidades, na lírica de Débora, a criança e o adolescentes são representados não mais na sua potencialidade, mas sim, como seres marcados e destinados a sina da violência.

Esta camada de tristeza que vem da percepção da pesada realidade, torna-se ainda mais trágica à medida que a existência continua a soprar novas vidas, novas crianças, que por sua vez, nascem inseridas em atmosferas tão pesadas e extremas como as de guerra. Fazendo referência a João Cabral de Melo Neto, a poeta diz que a humanidade é um aglomerado de “Severinos”, pessoas que nascem nos mais desoladores cenários, no “caminho de pedra e caatinga”, mas que aceitam a vida como a “sina de todo dia”.

De todos os livros que a Editora Penalux nos enviou, este foi o menos segmentado que li e não entenda isso de forma negativa.

Sabe quando você está em um momento onde tudo acontece? Amores, trabalhos, amizades, famílias, violência… Todos nós vivemos em um mundo não segmentado quando não estamos presos e fechados para o nosso próprio mundo.

É com isso que contamos na obra de Débora Pfeilsticker, que pode ir dos versos mais melodramáticos aos mais trágicos em um virar de páginas e isso poderia ser trágico se a autora não tivesse escrito o livro com tanta maestria.

Não sei explicar, mas a obra conseguiu aflorar em mim vários sentimentos, me fazendo sentir raiva e tristeza, possibilitando que eu meditasse profundamente no que tinha acabado de ler.

É raro encontrarmos autores que não passam somente o seu olhar e, neste livro, a autora conseguiu proporcionar o ponto de vista de pessoas que sofrem, que possuem o seu cotidiano conturbado e peço que preste atenção no poema a seguir que a obra contém e que me fez chorar todas as vezes que li:

FAIXA DE GAZA

Em caso de troca de tiros, sigam o protocolo:
“Saiam de perto das janelas!”
“Abaixem suas cabeças!”
“Deitem no chão!”
“Sigam para os pontos seguros da sala de aula!”
“Ninguém sai para a rua!”

Sim, crianças aprendem logo cedo que a vida não é uma brincadeira
A praça é de guerra.

Fogo cruzado nas favelas. 
Um tiro rasgou o útero que embalava Arthur.
Não foi possível ao menos seguir o protocolo.

Infelicidade geográfica – 
a linha divisória entre território humanos (e desumanos)
a linha entre a linha e a constatação
entre os olhos que se fecham e os corações que se jogam no chão.

É desespero na praça, no beco, no banco.
Nas escolas só sete dias sem tiroteios este ano
E nas sala de aula vejo olheiras, vejo olhos cansados
da noite aflita de medo.
Olhos sem brilhos que refletem opacos na lousa
a desatenção,
a depressão,
a infância perdida.

E de repente, a professora grita (outra vez);
“Deitem no chão!”

Realmente eu não consigo ler este poema sem me emocionar. O cenário é super bem descrito e a proximidade com nosso cotidiano deixa a poesia ainda mais forte.

Diferentemente de Ensaio Sobre a Solidão, resenhado recentemente, os poemas possuem títulos, já que, mais uma vez, se trata de uma obra não segmentada e os poemas não conversam entre si. É um poema que acaba quando ele chega ao fim.

Assim que apresentei este livro durante a live que aconteceu em nosso Instagram, percebi o quão este livro é desejado, com algumas pessoas buscando ter a obra até mesmo em ebook. É interessante como nem sempre buscamos algo específico. A temática mais ampla foi bem recebida pelos nossos guerreiros e guerreiras que seguem o IG.

A autora Débora parece ter a noção de como a sua obra nos impacta, já que até mesmo dentro do livro contamos com um poema intitulado Caleidoscópio II, onde ela busca explicar qual a função de suas poesias.

CALEIDOSCÓPIO II

É minha poesia contida,
sóbria e comedida
que te faz apaixonar,
refletir,
emocionar.

Parabéns, Débora. Você conseguiu!

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Caleidoscópio – Débora Pfeilsticker
Editora: Penalux
Lançamento: 2018
Páginas: 90

Nota: 5/5
⭐⭐⭐⭐⭐

Preço mínimo: R$ 34,00 (Penalux)

A OBRA FOI DISPONIBILIZADA GRATUITAMENTE PARA O ARENA LITERÁRIA

Foto/Capa: Fephs Lima
Foto/Texto: Divulgação

 

 

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