Resenha: Do Pássaro Voando ao Contrário, de Reynaldo Bessa – Por Fephs Lima

Por Fephs Lima

Sinopse: 

    Bessa compara os sentimentos e o interno com percepções objetivas, se a emoção dúbia do ato de escrever, angustiante e ao mesmo tempo criativa pode ser sintetizada ou definida, basta-se pensá-la como se fosse “o dia de hoje querendo saber as novidades do ontem”. O autor tem esta característica de trazer a comparação para seus versos, com quem diz, o mundo não é somente a paisagem, mas os seus costumes e suas padronizações, servem como instrumento de comparação para se entender os sentimentos humanos.

            É sintético, é objetivo. Segue-se brutalizando o caráter sutil de estados e emoções, o sorriso não é sinônimo de felicidade e sim, “ um empréstimo forçado, além das suas possibilidades”, o que ocorre é que as particularidades de sentimentos, alegrias, tristezas são desdobramentos que vêm em resultado as ações e funcionamento do mundo, cada estação, cada convenção social fazem da  felicidade, da criatividade causas que surgem como respostas  negativas à fonte que jorra da modernidade, da instabilidade, do distanciamento.

         Mas o autor sabe também falar do amor, da saudade, sabe utilizar o cenário para descrever, enriquecer e sensibilizar seus enredos poéticos, como um romântico saudoso que enxerga toda a vida e toda emotividade dos lugares, “o pôr do sol feito uma imensa coroa de ouro afundando no mar, / a igrejinha lá em cima, encolhida / feito um gato preguiçoso”. Neste sentido Bessa demonstra que suas comparações nascem não somente do seio hostil do cimento e do asfalto, mas também das relações afetivas e dos amores que “permanecem em seus olhos cansados”.

No mesmo instante que vi a capa do livro “Do Pássaro Voando ao Contrário”, notei que o título começava com letra minúscula e com o efeito espelhado que o mesmo possui e para entender o motivo, só terminando de ler.

Assim como “Ensaio sobre a Solidão”, resenhado recentemente, os poemas de Reynaldo Bessa não contam com títulos próprios, pois assim como a obra de Fabíola Weykamp, não se trata de algo com um fim, é um enredo contínuo sobre um personagem que vê, em seu cotidiano, coisas que lhe remetem ao passado.

Aí está o nome da obra. Estamos falando de um pássaro que voa, que está livre e que mesmo assim escolhe por voar ao contrário e não se desapega do que viveu, tendo, como única solução futurista, a morte, citada algumas vezes nos versos, mas não a morte literal, a morte interior, o sentimento de inutilidade e, por isso, este apego ao passado, pois teria sido quando se sentia vívido.

“Quando escrevo
estou entre um sentimento
que agoniza e outro que 
 começa a nascer:
sou um sentir não sentindo,
um estar não estando, 
um sei lá…
Talvez, um hoje
querendo saber
das novidades do ontem”

A obra é dividida entre dois momentos: Pequenos Infinitos e Grandes Labirintos. Enquanto no primeiro, contamos com versos mais longos e profundos, no segundo contamos com versos simples, rápidos e sutis.

É importante ressaltar que durante a obra o autor deixa muito notável o seu apego a sua família, ressaltando seu pai, sua mãe e seu irmão, que, como dito anteriormente, são pessoas que estiveram em seu passado e que ajudaram na construção do ser que esteve feliz e, que hoje, se encontra perdido em meio ao seu mundo pretérito.

É bem legal como conseguimos até mesmo imaginar como os versos do autor foram desenvolvidos, já que ele vê seu passado no seu dia a dia, enquanto acorda, enquanto fica em sua janela, enquanto escreve ou enquanto vai ao mercado.

“Há dias que morro
Há uma vida e tantas mortes
Mortes a prazo,
mortes
Por diversas vezes o sol ergueu minhas pestanas de lona de
circo em fim de temporada, e por diversas vezes as abaixou
Houve um momento em que pedi para deixar-me aqui,
sob esse deserto efervescente
As tardes tinham gosto de labaredas
O mundo lá fora gritava meu nome, e eu muito
de longe, o ouvia como o som de um trem que eu
acabara de perder numa estaçãozinha qualquer
Tive vontade de chamar por alguém que
nem mais pode segurar sua caneca
Alguém que já esqueceu o meu nome
Tive vontade de tantas vontades, menos o de ser eu
ali, morrendo como uma folha sobre a calçada
Nessas horas há desejos de gritar,
mas é quando não podemos
Há vontade de sussurrar, mas há
algo de sinistro no sussurro
Morri, há dias
e sei que morrerei diversas outras vezes”

Muitos de nós podemos facilmente nos identificar com o autor. Quem não fica enrolando para dormir porque está se martirizando com as coisas que podia ou não fazer no passado e como isso poderia facilmente mudar o presente? São perguntas que geralmente vem acompanhadas de “e se”.

Reynaldo Bessa mostrou todos os seus ‘e se’s. Desta forma, conseguimos nos fazer os mesmos questionamentos, estabelecendo uma relação tênue entre escritor e leitor.

Do Pássaro Voando ao Contrário – Reynaldo Bessa
Editora: Penalux
Lançamento: 2018
Páginas: 114

Nota: 5/5
⭐⭐⭐⭐⭐

Preço mínimo: R$ 34,00 (Penalux)

 

A OBRA FOI DISPONIBILIZADA GRATUITAMENTE PARA O ARENA LITERÁRIA

Foto/Capa: Fephs Lima
Foto/Texto: Divulgação

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