Resenha: Degradados e Escolhidos, de Andrea Sales – Por Fephs Lima

Por Fephs Lima

Sinopse:

Andrea Sales demonstra inclinação ao estilo descritivo, não somente para elencar elementos, imagens, paisagens, como também, para desta forma, entrelaçar o campo das emoções e da cultura, com a simplicidade do cotidiano.

Sendo assim, perfazendo os mais diferentes temas fala-se de amor, de inadaptabilidade, de existencialismo, sempre, jogando com os elementos simbólicos demandados pelas temáticas específicas, o amor que se deseja é aquele que “acolhe por inteiro / Acolha os gritos e os medos”. Da mesma forma, já no domínio filosófico, desdobra-se todas as possibilidades de existência, por suas manifestações no andarilho, na diva, na lua.

O que se observa é uma capacidade tamanha para considerar cada temática evidenciando-se todo um domínio, de palavras, de simbologias, pertinentes ao campo subjetivo de cada assunto. Quando se fala de um passeio na praia, a autora faz questão de descrever a experiência referenciando as aves, a alga salgada, a menina e seus sentimentos.

Em “A Volta” vê-se o auge de um eu-lírico absolutamente humano, como se a autora quisesse afirmar estar “A Volta” é estar em contato, com o lado da alma mais corriqueiro, exemplificados em um ente que frequenta as aulas de umbanda, dança na chuva, toma um chá, mas que também, é feito de memórias como as da infância.

Ao ler a obra sente-se um gosto doce experimentado ao contato com uma esperança que escapa tenaz das páginas, sutilmente demonstrado pelo pensamento discreto de que estar na tempestade, nas batalhas, estrangeira em terras desumanas, é um meio de exaltar a naturalidade e o lado humano de todas as coisas, “estar no deserto entre camelos é uma maneira de ensinar movimentos aos Tuaregues”, pois assim, leva-se humanidade e amor para cada canto do mundo

Fico surpreso com essas sinopses que em si poderia se dizer uma resenha própria que se encontra no site da Editora Penalux, mas enfim, cá estou com mais uma resenha dessa editora para começar a semana.

Sei que o provérbio afirma que não devemos julgar um livro pela capa, mas esse não seria o tipo de livro que eu compraria justamente pela capa. Sei lá, talvez as imagens de anjos e demônios me remetam automaticamente a religiosidade, um santo que não gosto de me aprofundar muito. Contudo, cá estamos mais uma vez com um livro que me surpreendeu. Estamos nos tratando de um livro de posicionamento forte.

Logo nas primeiras poesias eu pude contar com uma surpresa: o posicionamento feminino no cenário atual de sociedade. Parece uma frase mega clichê de militante, eu sei, mas se clichês existem, não é a toa.

“Acabe com isto
Estou mandando
Já não é mais
Um pedido bem educado,
Veja,
Você triturou meus sonhos,
Mas ainda estou inteira,
Querido.
Você chegou a levantar a mão para mim,
Mas agora sou eu que mando
No barraco do meu coração.
E eu estou mandando você sair,
Querido.
Veja, 
Trate-me como uma dama,
Pelo menos uma vez na vida,
Ou vai virar dama de bandido,
Porque eu vou chamar a polícia,
E não pense que estou blefando.
Porque desta vez,
E, eu não discuto mais,
E nem pense em levantar
A mão para mim outra vez, 
Veja,
Dessa vez eu não estou blefando.”

Juro que este foi um dos poemas mais pesados e que deixou mais claro a revolta da autora sobre o cenário que é real, é cotidiano. Eu realmente fiquei curioso em descobrir se ela passou por isso, se isso, além de um pedido de socorro de muitas mulheres, foi um pedido de socorro pessoal do seu passado.

Além do posicionamento feminino, a obra também faz, de forma sutil, críticas à hipocrisia religiosa e como ela influencia no posicionamento das mulheres e na divisão de classes, ressaltando, por exemplo, os maltratados aos menos mendigos.

“Por trás de cada sem teto
Que você vai dar esmola,
Existe uma pessoa amada, uma história.
E quando de noite,
Você deitar em sua cama
Saiba que ele não vai ter onde deitar,
Mas provavelmente alcoolizado
Ele vai tombar.
Bebe sim porque não?
O empresário cansado bebe.
A socialyte traída bebe,
Todos procuram um refúgio.
Ele só quer casa e emprego.
Ele não tem nada.
Já teve casa,
Mas um dia,
Sem dinheiro para pagar o aluguel
Viu-se na rua,
Inóspita rua.
Inóspito Brasil,
Ame-o ou deixe-o.
Brasil achado,
Comprado, vendido,
Coisa, quinquilharia,
Nunca um país de povo soberano.”

Para aqueles que possuem ideologias, que são chamados de povo-massa, que pensa e age a favor de um país melhor, que busca melhorias contínuas, que são a favor de mudanças para uma vida melhor para todos.

Eu realmente me apaixonei na obra de tal forma que fica até difícil não reconhecer que, além de ganhar espaço na minha estante, ganhou espaço também em meu coração. Obrigado, Andrea Sales.

Resultado de imagem para livro degradados e escolhidosDegradados e Escolhidos – Andrea Sales
Editora: Penalux
Lançamento: 2018
Páginas: 76

Nota: 5/5
⭐⭐⭐⭐⭐

Preço mínimo: R$ 34,00 (Penalux)

A OBRA FOI DISPONIBILIZADA GRATUITAMENTE PARA O ARENA LITERÁRIA

Foto/Capa: Fephs Lima
Foto/Texto: Divulgação

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