Bram Stoker, autor de ‘Drácula’, tem juventude transformada em livro de terror

Anos fuçando a vida de Bram Stoker (1847-1912) renderam a seu sobrinho-bisneto Dacre um livro e uma dúvida.

O livro: “Dracula — The Un-Dead”, inédito no Brasil, sobre as aventuras dos personagens 25 anos após o retorno ao pó do conde vampiresco.

A dúvida: como Bram, uma criança doente, que mal conseguiu se levantar da cama até os 7 anos, recuperou a saúde e virou campeão de futebol na faculdade?

“Ele teve uma doença e uma recuperação misteriosas. Havia uma boa história ali”, conta Dacre, por telefone, dos EUA, onde vive.

Treinador do time canadense de pentatlo moderno na Olimpíada de 1988, em Seul, ele lembra que o tio-bisavô irlandês escreveu: “um vampiro tinha a força de 20 anos”.

“Será que ele usou sangue de vampiro, como os atletas trapaceiros que usam doping?”, especula.

Para ajudá-lo a imaginar como um menino enfermiço virou boleiro talentoso e romancista gótico, Dacre chamou J.D. Barker, autor de best-sellers de terror. Juntos, eles escreveram “Dracul: a origem de um monstro”, que ficcionaliza a vida de Stoker, da infância doente até os 21 anos, quando teria encontrado as criaturas sobre as quais escreveu. Para cuidar do menino enfermo, Dacre e J.D. empregam a sinistra babá Ellen Crone. Recém-lançado no Brasil, “Dracul” deve virar filme dirigido por Andy Muschietti, de “It: a coisa” (2017).

Lançado em 1897, o grande clássico de Stoker rendeu inúmeras releituras — da ópera à pornografia —, estudos acadêmicos e quase 300 filmes. “Drácula” nunca sai de catálogo e, nos últimos meses, ganhou novas edições brasileiras pela DarkSide Books e pela Nova Fronteira.

Enquanto isso, a editora Piu lança “Quando o 7 ficou louco”, único infantil de Stoker, que parece um conto de terror que a babá Crone contaria. Um menino e seu corvo ouvem do professor a história de como o número 7 enlouquece e se recusa a desenlouquecer.

“Descobri “Drácula” aos 8 anos, numa edição que comprei por 25 centavos numa venda de garagem”, conta Barker. “Esperava que meus pais arrancassem o livro de mim, por ser muito assustador, mas não. Eu o adorei e reli várias vezes. Ganhou novos significados com o tempo”.

Dacre e Baker também tentaram desvendar um dos mistérios de “Drácula”: o que aconteceu com as 101 primeiras páginas do manuscrito original? Stoker as teria limado por sugestão do editor, que não queria alarmar um público já amedrontado — os crimes de Jack, o Estripador, ainda estavam frescos na memória dos britânicos.

Mas o que o serial killer tem a ver com o vampiro da Transilvânia? Boatos dão conta de que, naquelas primeiras páginas, Stoker argumentava que toda a história, de fato, acontecera. No prefácio à edição islandesa, ele diz: “Não há dúvida de que os eventos aqui descritos realmente aconteceram, embora pareçam inacreditáveis.” Jack, o Estripador, é citado no prefácio.

O “Drácula” islandês foi publicado em 1901 com o título “Poder das trevas”, prefácio do próprio Stoker e enredo um pouco diferente do “Drácula” que se conhece. A versão é habitada por outros personagens, como uma vampira loura cujos seios o narrador se esmera em descrever. É um “Drácula” bem mais sexy.

Ninguém desconfiava que os islandeses liam outra versão de “Drácula” até que, em 1986, o holandês Hans Corneel de Roos apontou as diferenças. Surgiram suspeitas de que o texto seria do manuscrito original, antes dos cortes, mas a descoberta de uma edição anterior, sueca, confundiu ainda mais a história. Não se sabe se as versões nórdicas são esboços de “Drácula” ou traduções maliciosas.

RARIDADE DE MILIONÁRIO

A inspiração de “Dracul”, no entanto, não veio daí, mas de diários e anotações de Stoker e do manuscrito de “Drácula”, comprado pelo cofundador da Microsoft Paul Allen (1953-2018). Ele não contém as 101 páginas perdidas, mas, nos trechos riscados, Dacre e Barker buscaram pistas do que havia no material deletado. Proibidos de fotografar, eles só puderam examinar o documento com luvas e sob o olhar de guardas.

“Comparamos nossa pesquisa com cenas que faziam referência às primeiras 101 páginas. Assim, confirmamos que a história que inventamos é a mais próxima possível da que se perdeu”, afirma J.D.

Dacre acha que o tio-bisavô segue popular por sua abertura ao mistério e ao sobrenatural. E cita um trecho de “Drácula”: “Há mistérios que os homens só podem adivinhar, e que após eras e eras só conseguem resolver em parte, Creia-me, estamos agora no limiar de um desses mistérios.”

Fonte: O Globo
Foto: Divulgação

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