Os impactos dos livros distópicos para uma sociedade oprimida

A literatura distópica passa por novo boom. Surpreendentemente, os livros que vêm figurando entre os mais vendidos no Brasil são obras clássicas, com até oito décadas de publicação: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1932), A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949), de George Orwell, Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, e O conto da aia, de Margaret Atwood (1985).

Todas as narrativas têm em comum a crítica a estados autoritários. “Desde a ascensão do Trump e da nova direita no mundo, os romances de Orwell passaram a ser lidos novamente”, atesta Otávio Marques da Costa, publisher da Cia. das Letras, editora responsável pela obra do autor britânico no país.

A máxima “Make Orwell fiction again” (Faça Orwell ser ficção novamente) – adaptação do slogan de Donald Trump “Make America great again” (Faça a América grande novamente) – popularizou-se de tal forma que pode ser encontrada em camisetas, bonés, canecas e bolsas.

Em janeiro de 2017, na época da posse de Trump, a referência a 1984 por parte de uma assessora do presidente americano fez disparar as vendas do título nos EUA. O livro chegou ao primeiro lugar na gigante Amazon, e a editora Penguim mandou imprimir, às pressas, 75 mil exemplares.

“Naquele momento, houve um impacto quase imediato aqui, com aumento de 15% a 20% das vendas. Agora, com o novo contexto político brasileiro, notamos a segunda onda de interesse por Orwell”, acrescenta Marques da Costa.

O publisher destaca também que a edição ilustrada de A revolução dos bichos, assinada pelo gaúcho Odyr e lançada recentemente pela editora, catapultou parte das vendas do título. “Os responsáveis pelo espólio de Orwell gostaram tanto que ela vai virar a versão oficial em quadrinhos do livro. Deve ser lançada em meados do ano que vem nos EUA, com grande tiragem”, antecipa Marques da Costa.

Clássicos da distopia sempre tiveram boas vendas no Brasil, com momentos de pico. De acordo com ele, houve gente fazendo a ligação de Fahrenheit 451 com a campanha brasileira. “Já Admirável mundo novo, na minha opinião, tem relação zero com a eleição. Mas é um título que sempre vendeu muito bem, sobretudo por ser adotado nas escolas”, comenta Mauro Palermo, diretor da Globo Livros, que edita os dois títulos pelo selo Biblioteca Azul.

De acordo com ele, as polêmicas são sempre positivas. “Lembro-me de quando Caçadas de Pedrinho (1933), de Monteiro Lobato, foi acusado de racismo (em 2014, em imbróglio que chegou até o Superior Tribunal Federal). O livro passou a vender muito mais”, comenta Palermo.

O conto da aia, que em novembro alcançou o topo da lista dos livros de não-ficção mais vendidos no país, é um caso diferente. A adaptação do romance de Margaret Atwood para a série homônima, produzida nos EUA pela plataforma de streaming Hulu e exibida por aqui pelo Paramount Channel, virou febre mundial. A segunda temporada foi encerrada no último domingo pelo canal pago.

Vale dizer, no entanto, que ainda durante a campanha de Trump, em 2016, esse romance voltou a ser lido nos EUA. Quando a série foi lançada, em 2017, o interesse se multiplicou. Desde então, protestos pelos direitos das mulheres têm levado manifestantes, mundo afora, a se vestir com a roupa vermelha da protagonista do livro e do seriado.

Na quarta-feira, Atwood anunciou a publicação, em setembro de 2019, de The testaments, sequência de O conto da aia. Isso deve manter o interesse pelo romance por um bom tempo – a terceira temporada da série estreia nos EUA no primeiro semestre.

A Rocco publica O conto da aia desde 2006. Ano passado, o romance ganhou outra edição, com nova capa. Ele se tornou fenômeno de vendas a partir da série. O sucesso do título, lançado em 1985, trouxe mais visibilidade à obra de autora canadense, em especial a outros romances distópicos dela, como Oryx e Crake (2003) e O ano do dilúvio (2009). No primeiro semestre de 2019, a Rocco publica Maddadão (2013), livro que encerra essa trilogia.

ÍMPETO

A livreira Simone Pessoa, que trabalha na Ouvidor, em BH, afirma que todos os títulos citados nesta reportagem sempre venderam bem. “Mas não com o ímpeto de agora. Avós, tias, pessoas mais velhas, têm vindo comprar livros para adolescentes de 13, 14 anos. Assim que A revolução dos bichos em quadrinhos foi lançado, virou uma pequena febre aqui na loja”, comenta.

Só agora Manoel Neto, professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC Minas, está lendo A revolução dos bichos – “que é mais uma crítica ao stalinismo, aos autoritarismos de esquerda”. De acordo com ele, boa parte desses títulos geralmente atrai os jovens. “Li 1984 no primeiro ano do ensino médio. Na época, aquilo pareceu muito distante da realidade, pois estávamos no processo de redemocratização do Brasil. Os jovens de agora podem lê-lo para tentar entender o que está acontecendo tanto no país quanto no mundo.”

De acordo com o professor, o mais interessante é que títulos assim levam a pensar “numa terceira alternativa, para tentar superar a polarização atual.”

A historiadora Heloísa Starling recomenda aos jovens procurar tais livros. “Estamos tão habituados com a democracia, pois são 30 anos da experiência democrática no Brasil, que boa parte da meninada acha que ela é algo natural. A literatura distópica nos mostra o que ocorre quando se perde a democracia”, conclui.

Fonte: Uai
Foto: Divulgação
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